O NOME PRÓPRIO e o gozo da letra
Antonio Quinet*
O nome próprio, o novo filme de Murilo Salles, é um filme sobre o gozo e a letra, a sexualidade e a literatura, o viver e o escrever.
Camila não é apenas uma mulher (como se fosse pouco), Camila é o nome d'A Mulher excessiva, louca, fascinante e irritante que escapa por entre os dedos por ser fluída e amorfa. É aquela que diz "eu me dissolvo antes do fim". Personagem feminina blogueira virtual mais-que-real, Camila é a cara da nossa contemporaneidade. Camila é a mulher líquida.
O filme mostra o paradoxo lacaniano: todas as mulheres são loucas, ou seja, nada loucas. Camila é a figuração do gozo feminino: aquele que nada pode travar, sem lei, sem grana, sem casa que a possa alojar. É o gozo identificado por Lacan como para-além do falo e da linguagem. É um gozo místico, misterioso, transbordante, que faz com que toda mulher seja meio louca, inapreensível, inclassificável, insuportável... e maravilhosa.
É através dessa persona que o filme mostra o ser do artista que faz arte de seu gozo, tanto o gozo do prazer quanto o gozo do desespero.
É com a escrita que camilacanianamente a personagem dá uma borda a seu gozo em seu blog – escrita sempre dirigida ao outro. Assim ela promove um contorno à sua desmedida e da contingência do viver constrói um continente para caminhar em seu litoral. Camila não tem casa própria, ela está sempre na casa de um namorado, de um amigo, de um fã e sempre termina se fazendo expulsar de lá e ir para outra morada. Mas a primeira coisa que faz ao chegar na casa nova (do outro) é ligar seu computador e escrever em seu blog. Ao estar sempre mudando de casa, Camila é a figuração do sujeito sem teto, sem lugar movida pelo desejo sempre deslizante. Mas sua escrita no blog é sua casa. É também a escrita que lhe dá um corpo: "Meu corpo-palavra".
Heideggerianamente Camila demonstra que a linguagem é a morada do ser. As letras fazem o chão e sobem paredes como o filme plasticamente mostra.
E por meio da escrita ela promove a ficção de sua existência: fixação de seu escoamento; "fixão" de seu gozo. "Vou conter com as letras esse fluxo que não pára de ir longe". Mas nem sempre consegue e aí bebe, se intoxica e lava paredes na tentativa compulsiva de lavar o fluxo e limpar os vestígios de seu excesso.
O filme mostra que a escrita virtual é real. Ela está para além do imaginário, dos corpos empíricos: ela se pauta no simbólico da linguagem e quando é arte, ela acolhe e transmite o real pulsional.
O filme mostra como a escrita é tanta a sublimação da pulsão sexual ("Escrevo melhor quando estou apaixonada") quanto da pulsão de morte ("Escrever é mais importante do que morrer").
Camila tenta o amor como meio de conter um gozo, canalizá-lo, domesticá-lo, domá-lo, mas não consegue: um parceiro não basta e nenhuma regra ou pacto de fidelidade consegue enquadrá-lo. Tampouco a bebida a acalma: a vodka a torna ainda mais líquida.
Camila é uma desamparada e por vezes se afoga desesperadamente. A cada rompimento amoroso ela é jogada ao mar do desamparo e se desarvora. Lá onde nenhuma linha é reta, onde todos os caminhos são tortos e as ondas são ressacas. Em pleno afogamento, Camila cria as letras e delas faz seu litoral. Terra à vista! Nada mais real. "Encontrei um leito por onde escoar meu excesso". A literatura lhe dá uma lituraterra. E, no final do filme, Camila consegue fechar seu livro sabendo que ela é tanto uma escritora quanto sua personagem – ela é duas, pelo menos duas: a da contingência e a da continência. O filme de Murilo Salles nos mostra como se cria um nome próprio, nome de autor, "fazendo valer suas cicatrizes".
* Psicanalista, doutor em Filosofia, dramaturgo.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
sexta-feira, 11 de julho de 2008
quinta-feira, 10 de julho de 2008
AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
Por muito tempo achei que a ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
eternamente meu ... nosso... Carlos Drummond de Andrade.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
terça-feira, 8 de julho de 2008
ENIGMA
O enigma é sempre uma pergunta, uma forma de se perguntar e de perguntar ao Outro.
Querer saber sem perguntar leva o sujeito a uma posição arrogante, pois o arrogante não pergunta nem roga nada ao Outro.
O sujeito na arrogância, por seu temor, não pergunta.
O temor em perguntar põe em evidência aquilo que não suporta saber.
A arrogância não pergunta nem se pergunta.
O enigma é sempre uma pergunta, uma forma de se perguntar e de perguntar ao Outro.
Querer saber sem perguntar leva o sujeito a uma posição arrogante, pois o arrogante não pergunta nem roga nada ao Outro.
O sujeito na arrogância, por seu temor, não pergunta.
O temor em perguntar põe em evidência aquilo que não suporta saber.
A arrogância não pergunta nem se pergunta.
AMOR
O amor em Freud é da ordem da repetição, com Lacan, o amor é
da ordem da criação.
É na e através da repetição que o sujeito cria algo
diferente.
O que se cria é uma possibilidade de nomeação daquilo que até
então não pode ser nomeado.
O amor em sua vertente criacionista implica que
o sujeito possa saber a respeito de um desejo inédito.
Nomear o inominável!
Nomear aquilo que o causa.
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